Artigo 24 – Qualidade de vida

“Qualidade de vida: Quem tem o direito de definir?
por Marcelo Veras | 05 de abr de 2012

Eu odeio cidade com pouco carro, pouco trânsito, poucas pessoas, ar puro, muita árvore, pouco asfalto, muito silêncio, sem aeroporto grande e onde todos se conhecem. Eu realmente odeio. Até consigo ir para um lugar desses para descansar, mas depois de 3 dias já fico me coçando para voltar para São Paulo. Aliás, São Paulo para mim tem a melhor qualidade de vida do Brasil. Há 11 anos ouço a mesma pergunta: - Por que você mora em São Paulo se o seu escritório fica em Campinas? Isso é loucura. Talvez eu seja louco mesmo, mas eu amo morar em uma cidade que tem 7 milhões de carros. Um grande amigo soltou uma frase recente sobre cidade pequena que quase me matou de rir. Ele disse: - Cidade que não desce Boeing não merece respeito.

Brincadeiras a parte, quero tratar hoje de um tema que está na moda - Qualidade de vida. As empresas estão cheias dos tais “Programas de qualidade de vida”, onde todos são motivados a fazerem alguns segundos de ginástica laboral no escritório, comerem melhor, dormirem melhor etc. Os médicos não param de aconselhar seus pacientes sobre como melhorar a qualidade de vida, reduzindo o estresse e cuidando melhor da saúde. As academias estão com programas mais completos que oferecem “consultoria” sobre qualidade de vida. Enfim, hoje todos estão em busca da tão falada Qualidade de Vida.

Eu acho tudo isso muito lindo. Mas uma coisa me incomoda um pouco. É o fato de quererem “enlatar” o conceito de qualidade de vida para que todos comprem a mesma coisa. Isso é um horror. Um péssimo hábito do século XXI. Dizer que existe um pacote de ações e atitudes que representam este conceito é, no mínimo, um equívoco. Até porque, acho que cada um tem, inclusive, o direito de querer viver muito ou pouco. Lembro-me muito bem de quando eu morava no Rio Grande do Sul e perguntei a um colega que comia churrasco 4 vezes por semana. – Escuta, comer tanta carne vermelha assim, cheia de gordura, não faz mal? A resposta dele: - Sim, mas o que importa na vida é a largura e não o cumprimento (referindo-se a viver pouco, mas bem, comendo o que gostava de comer).

Bom, se você já me conhece, sabe que quando eu enrosco em algum conceito que não entendo ou não concordo, eu não sossego enquanto não encontrar uma resposta que me deixe satisfeito e que eu possa defender com bons argumentos nos meus cafés com amigos. Neste caso, a minha dúvida, ouvindo todos estes conceitos enlatados, é: O que é qualidade de vida? Quem tem autoridade moral para definir isso?

Desde que o macaco desceu das árvores e começou a andar em bandos, como nômades, a vida passou a ter alguns sentidos. Na antiguidade, a luta era pela sobrevivência e pela comida. Felicidade era algo fora da pauta. Depois, com o surgimento das religiões, a luta era pela sobrevivência, pela comida e por um lugar no céu, ao lado de Deus. Recentemente, bem recentemente, o homem começou a falar em felicidade, realização e outras coisas. Hoje, todos querem viver bem e muito. A medicina está atrás da droga que nos impedirá de envelhecer, a droga que preservará os sistemas vitais etc. É como se viver mais fosse hoje a meta a ser alcançada. O resultado que separa os bons dos ruins. Os fortes dos fracos. Eu olho pra tudo isso e penso: - Será que eu quero uma vida cumprida ou larga, como dizia o meu colega gaúcho?

Como não encontrei nada na literatura ou nos dicionários que me convencesse do que realmente é qualidade de vida, resolvi, com a ajuda de algumas opiniões de pessoas que respeito, comprar a ideia de que não deve existir um conceito universal e que vale para todos. Cada pessoa, em função do seu estilo de vida, do que gosta de fazer com o seu tempo, sua energia e o seu dinheiro, tem o direito de ter a sua definição e os seus parâmetros sobre o que é uma vida de qualidade. Para quem gosta de surfar, não existe qualidade de vida em uma cidade que não tem praia ou que não está perto de uma. Para quem gosta de arte e cultura, não existe qualidade de vida em uma cidade que não tenha uma bela agenda cultural. Para quem gosta de uma vida mais reservada, uma cidade pequena, onde todos sabem da vida de todos, tem uma péssima qualidade de vida. E assim vai. Cada um, com os seus próprios parâmetros, tem o direito de definir o que quer, pagando o preço e colhendo os frutos da sua escolha.

Para não dizer que não encontrei nenhum vaso comunicante entre todas as inúmeras possibilidades de estilos de vida, posso dizer que hoje acredito que a qualidade de vida está diretamente relacionada à qualidade dos nossos relacionamentos. Como seres relacionais, acho que tão (ou mais) importante do que o lugar, estão as pessoas com quem nos relacionamos. Digo isso com convicção. Vou até onde tiver que ir para visitar estar junto dos meus amigos e familiares. E nestes momentos, independente se estou ou não “na minha praia”, fico feliz.

Pense nisso ao longo das próximas semanas. Faça o que gosta e esteja com quem gosta. Independente de o mundo inteiro ficar tentando te vender um estilo de vida que não é o seu. Isso sim é qualidade de vida!

E viva São Paulo. Com os seus 7 milhões de carros, mais de 70 shoppings centers e com os melhores restaurantes do Brasil.

por Marcelo Veras
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