Artigo 116 – O exemplo vem de cima

“sem ter o que fazer”
por Marcelo Veras | 24 de jun de 2013

"Nada é tão contagioso como o exemplo” 

O assunto do momento não é outro senão a onda de manifestações espalhadas por aí. Confesso que no início eu mesmo engrossei o coro contra as mesmas, achando que tratava-se de mais um bando de gritando por aí. Mas as semanas se passaram e a coisa ganhou vulto, musculatura e adesões, até mesmo fora do país. Nada como o tempo para nos fazer pensar melhor e analisar fatos com mais inteligência, calma e profundidade.

Ao discutir com um grande amigo sobre as manifestações, suas motivações e impactos, convenci-me definitivamente que não se trata apenas de um berro isolado e sobre um tema isolado. Na verdade, como todos hoje sabem, trata-se de um grito maior. Um grito de “chega!”. Na verdade, o balde encheu. Esta revolta generalizada é resultado de anos e anos de silêncio mórbido de um povo que paga uma das maiores cargas tributárias do mundo e que é assaltada todo dia pela corrupção que vem do topo e que se espalha pela sociedade inteira. Um país onde a justiça é lenta e não funciona quando o réu é político ou pessoa influente. Um país que consegue gastar bilhões para construir estádios de futebol, mas que não consegue priorizar investimentos básicos em educação, saúde e segurança. Um país que tem 39 ministérios e onde a burocracia trava tudo, desestimula o investimento, desanima investidores e empresários. Enfim, um país estranho, mal administrado, corrupto e lerdo.

Mas o que isso tem a ver com esta coluna? O que isso tem a ver com a gestão de carreiras e de pessoas? Na verdade, tudo. Sabe por que? É simples entender. Basta pensar que a origem disso tudo está no topo desta “empresa” chamada Brasil. Embora pareçam assuntos distintos, muitas das práticas que temos hoje no nosso cotidiano e todas estas manifestações que aí estão, são motivadas pelo exemplo que vem de cima. Há inúmeros vazos comunicantes entre tudo isso e a postura dos nossos líderes. E este fenômeno acontece todo dia também nas empresas. Ah se os líderes e donos de empresas soubessem medir o impacto de suas ações no resto da empresa ou de suas equipes! Talvez pensassem duas vezes antes de falarem e agirem. Nas empresas, assim como na sociedade, o que é feito no topo avaliza tudo dali para baixo. É mais ou menos assim: “Se eles podem, eu também posso”. E assim as pessoas começam também querer o seu pedaço do bolo. É daí que surge a sonegação, a compra de um guarda quando se é multado, a compra de um fiscal para liberar um alvará etc. Só que isso tem um limite, porque quando todo mundo também entra na onda, a máquina quebra. O Brasil entrou nesse ciclo horrível e está parando de funcionar.

Nas empresas, sem que se perceba (só nos resultados da empresa), os funcionários usam álibis criados pelos próprios líderes. Quando um líder não dá o exemplo e age de forma errada, ou diz uma coisa e faz outra, está transformando a sua equipe ou empresa nesse Brasil de hoje – uma terra de ninguém. E o pior, nem percebem que os seus comandados colocaram o carro na banguela e estão pouco se lixando para o futuro da empresa. Não consigo dizer quantas vezes já ouvi a frase a seguir de alunos, ex-alunos e colegas de trabalho: Desculpa, mas se meus chefes não são sérios e não têm o comprometimento que deveriam ter com a empresa, não sou eu que vou me matar por isso aqui”. E o pior é que esta postura é discreta e quase imperceptível. Os líderes não a enxergam. Fazem suas besteiras, agem com falta de meritocracia, não cumprem o que prometem, falam uma coisa e fazem outra, e acham que isso não terá nenhum impacto nas pessoas que ali trabalham. Dou risada de tanta burrice e falta de percepção.

Sabe, sempre tomei muito cuidado com o que faço e falo na frente da minha filha e das pessoas que trabalham comigo. Mas vou redobrar as atenções, porque realmente não há nada mais contagioso do que o exemplo. Se você tem um único funcionário na sua equipe, lembre-se disso todo santo dia. Até o próximo!

por Marcelo Veras
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