Artigo 211 – Porque os bons vão embora – parte V

“Falta de meritocracia – a melhor forma de espantar os melhores”
por Marcelo Veras | 27 de abr de 2015

  

 Uma equipe subiu em um barco a remo e ouviu atentamente o seu líder. Ele apontou a direção e convocou todos a remarem forte para chegarem a uma nova ilha. Esta conquista seria muito representativa para o futuro desse grupo. Você, um dos melhores remadores do time, se empolgou com o novo desafio, ainda mais quando o líder anunciou que - após superarem a façanha - um dos membros da equipe seria escolhido para comandar um novo barco que estava sendo finalizado. Ou seja, uma bela promoção. Todos começaram a remar e a jornada começou. O líder se postou na frente do barco, sempre olhando para a direção do seu objetivo. Ao longo da viagem, o chefe pouco olhou para trás ou checou como estava o desempenho da equipe e de cada um. E você lá, remando forte, muito forte, como sempre fez.

 Em determinado momento, você (e todos os demais membros da comitiva) perceberam que um dos remadores começou a fazer corpo mole. Em intervalos cada vez mais frequentes, remava sem força e chegava até a largar o remo por alguns instantes. Todos começaram a ficar incomodados com esta situação, principalmente você. O líder nem sequer notou, porque quase não olhava para o grupo. Depois de algum tempo, alguns perderam a paciência e começaram a fazer o mesmo. Em poucos instantes, a redução da velocidade do barco era notória. De vez em quando, alguns também seguiam o exemplo e faziam corpo mole. E o líder, nada.

 Assim que chegaram ao destino era óbvia a diferença de cansaço de cada remador. Você suava como tampa de panela, enquanto alguns pareciam que tinham acabado de se arrumar para a missa de domingo. O líder agradeceu a todos, fez um gesto de comemoração e agradecimento pelo empenho coletivo e fez o seu anúncio. Para a surpresa de todos, justamente o remador que fez corpo mole durante quase toda a travessia foi anunciado como o líder do novo navio. Logo quem. A decepção foi total, até porque esta postura era recorrente e percebida por todos na equipe. Não tinha sido a primeira vez!

 Agora me responda: O que você faria neste caso? Como se sentiria e qual seria a sua postura daí pra frente?

 Essa história acontece diariamente nas empresas, independente do setor, porte ou nacionalidade. Por falta de critérios claros ou por avaliações que fogem ao mérito profissional, pessoas são premiadas ou promovidas sem merecerem. E isso causa um dos maiores estragos que se pode imaginar em uma equipe e nos seus melhores talentos. 

 Este é o nosso quarto pilar desta série chamada “Por que os bons vão embora” – Meritocracia. Esta palavra tem um poder enorme de construção e, ao mesmo tempo, de destruição. Uma cultura de meritocracia é um ímã para os melhores. A falta dela, um convite expresso para irem embora. A razão básica é que, para começo de conversa, ninguém é trouxa. Muito menos os profissionais mais talentosos. Se um líder permite que alguns façam corpo mole, e até pode chegar a premiá-los, por que os outros vão se matar para entregar bons resultados? Isto é básico, mesmo sendo um erro muito cometido atualmente. Aliás, esta é uma das grandes queixas que ouço de alunos e ex-alunos de grande talento e potencial.

 Esta é mais uma face oculta deste tema. Nem todos os líderes são muito atentos a isso. Sempre digo que uma promoção ou um desligamento tem mais impacto em quem fica onde está do que em quem muda, sendo promovido ou demitido. Quem permanece onde está precisa reconhecer que o critério foi profissional. Caso contrário, A equipe se desmotiva e perde força. Os melhores vão embora e os demais vão largar o remo sempre que der.

 Cuide bem deste pilar. Deixe claro quais são os critérios que você usa para avaliar as pessoas que trabalham com você. Construa métricas claras de desempenho e premie sempre os melhores. Assim,  a sua equipe sempre será composta por profissionais de alto nível  e que irão entregar ótimos resultados. Até o próximo!

por Marcelo Veras
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