Artigo 238 – O sapo e o escorpião

É difícil mudar a nossa essência
por Marcelo Veras | 16 de nov de 2015
Artigo 238 – O sapo e o escorpião

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A chuva veio forte, muito forte. E quando se deu por conta, o escorpião estava ilhado em um pequeno espaço de areia, sem nenhuma linha de conexão com a margem da lagoa. Quando estava quase entrando em desespero, avistou um sapo nadando bem próximo, na direção do barranco. Não pensou duas vezes:

- Oi amigo, tudo bem? Você pode me ajudar?

- Oi, tudo bem? Ajudar em quê? – respondeu o sapo.

- Estou preso aqui e essa chuva não vai parar tão cedo. Não sei nadar e preciso chegar à margem antes disso tudo aqui ficar debaixo d´água e eu morrer. Você poderia me dar uma carona?

- Você está brincando, não é? Você acha mesmo que vou colocar um escorpião nas minhas costas?

- Como assim?- respondeu o escorpião. Só quero ser salvo. Não vou fazer nada com você. Aliás, por que acha que faria algo com alguém que salvaria a minha vida?

- Sei lá! – disse o sapo. Não confio em um escorpião.

- Ora, vamos lá! Deixa de bobagem. A água não para de subir. Me salva, vai! Prometo que não vou fazer nada de mal a você. Juro por tudo o que for mais sagrado. Assim vai fazer uma boa ação!

Após alguns segundos de reflexão, o sapo concordou em deixar o escorpião subir nas suas costas e nadar até a margem. Os dois seguiam lentamente, debaixo da chuva forte e chegaram bem. No entanto, antes de descer das costas do sapo, o escorpião cravou seu ferrão no pescoço do sapo e descarregou uma enorme dose de veneno. Ainda agonizando, mas consciente, o sapo falou:

- Poxa vida, você me traiu! Por que fez isso? Eu salvei a sua vida. Você me garantiu que não ia fazer nada de mal a mim. Seu idiota!

O escorpião olhou profundamente nos olhos do sapo, sabendo que ele morreria em segundos, e disse:

- Desculpe-me, mas não posso ir contra a minha natureza.

Essa história reflete bem uma dinâmica das relações que acho que todos já passaram alguma vez na vida. Refiro-me a todos os tipos de relações, pessoais ou profissionais. Situações em que nos sentimos absolutamente surpresos com alguns posicionamentos, mas que, no fundo, eram 100% previsíveis. O sapo, no caso, sabia qual era a natureza do escorpião. No fundo, no fundo, ele sabia. E dançou por acreditar que ela poderia ser mudada.

Não estou afirmando que pessoas ou convicções pessoais não mudem. Mudam sim, e muito. Mas algumas questões são tão, mas tão, enraizadas e fazem parte de um conjunto de convicções tão profundas, que não mudam nem sob tortura. Notem a postura de determinadas pessoas em relação à política ou religião. Percebam também os traços culturais e os códigos de conduta (escritos e não escritos) de empresas, ou até mesmo as convicções de pessoas ligadas a você (família, amigos). Se você pensar bem, vai encontrar valores e crenças que fazem parte da natureza dessas pessoas e organizações e que são como a postura do escorpião – na hora “H”, prevalecerão.

Essa história não é um alerta para ninguém. Apenas uma constatação de que o ser humano é um animal, que embora tenha inteligência e capacidade de raciocínio, também tem instintos naturais. É preciso entender isso, aceitar essa verdade e se prevenir contra “venenos de escorpião”. Como? Procurando conhecer bem e profundamente cada pessoa que entra na nossa vida, seja na dimensão pessoal ou profissional, entendendo quais são os seus valores mais profundos e a sua natureza. Isso se consegue com muita conversa, perguntas, respostas, discussões sobre os temas em comum e analisando o histórico de decisões e posturas dos outros. Nem sempre isso é suficiente e sempre poderemos nos surpreender, para o bem ou para o mal, mas ajuda a minimizar os riscos de morrer como o coitado do sapo. Até o próximo!

por Marcelo Veras
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