Artigo 281 – Empreendedorismo em todas as idades

“Ter um bom emprego – um sonho de cada vez menos pessoas”
por Marcelo Veras | 19 de set de 2016
Artigo 281 – Empreendedorismo em todas as idades

Pouco antes de escrever este texto, estava dando uma entrevista para um canal de TV onde o tema era o crescimento do empreendedorismo na terceira idade. Uma pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) apontou que, em oito anos, houve um aumento de mais de 70% de empreendedores iniciais com mais de 55 anos. Em 2015, 8,4% dos empreendedores iniciais tinham entre 55 a 64 anos. A expectativa de vida cresce ano após ano e deve bater os 100 anos em duas décadas. Ou seja, as pessoas se aposentam com 65 anos e precisam decidir o que fazer nos próximos 35. Muitos, por mais absurdo que possa parecer para alguns, decidem abrir um negócio, correr riscos e ter a sua própria empresa.

Por outro lado, um outro estudo mundial recente mostra que 66% dos “millennials” (pessoas que nasceram depois do ano 2000) não querem trabalhar em empresas, mas sim ter o seu próprio negócio. Esta é a média mundial. No Brasil, o percentual sobe para 71%. Imagine só, caro leitor. 71% das pessoas que hoje tem menos de 17 anos não quer trabalhar para os outros e sim montar a sua própria empresa no futuro.

Bom, esses dados mostram duas faces extremas (idosos e adolescente) de uma mesma moeda. O desejo de empreender, ter a sua própria empresa e construir o seu legado está se espalhando mais do que fofoca em café de empresa.

Creio que uma análise simplista desses números seria perigosa. Mas para mim, que convivo diariamente há 17 anos com jovens em início de carreira, posso afirmar com tranquilidade que existe uma mudança muito radical em curso. E ela vai alterar significativamente o mundo do trabalho e das empresas.

O modelo de empresa atual, na minha modesta visão, está fadado a desaparecer. Uma empresa hierarquizada, com processos que priorizam mais a uniformidade do que a inovação, a hierarquia mais do que a colaboração e

onde as pessoas são meras peças de uma engrenagem, deixará de existir. A principal causa dessa mudança será uma só: Ninguém vai querer trabalhar nela.

Sei que pode parecer uma visão muito futurista e distante, ainda mais num momento de crise onde as pessoas topam quase qualquer coisa por um salário, mas a reflexão aqui é de futuro e não de presente. O futuro próximo nos reserva grandes mudanças no ambiente profissional. Basta imaginar, pela quantidade de pessoas que pretende abrir seus negócios, quantas ideias novas vão surgir, quantos novos produtos vão ser desenvolvidos e quantas empresas consolidadas no mercado vão ver seus negócios virarem pó e serem substituídos por inovações. Aliás, isso já acontece hoje. Sempre brinco que “em alguma garagem do mundo tem alguém preparando uma bala de prata para o nosso negócio”.

Portanto essa discussão é séria e profunda. As empresas estão perdendo atratividade. Ter um bom emprego e receber um salário já é mais suficiente, principalmente para essa nova geração. A maioria das empresas hoje são lugares chatos, não inovadores, não atrativos e que não possuem um propósito motivador. É como se as pessoas estivessem lá basicamente por causa da relação de troca, mas sem orgulho de pertencer ou vontade de ficar ali para sempre.

Hoje tem um número crescente de pessoas mais velhas virando empresários e um número assustador de jovens que não quer trabalhar em empresas. O que vai acontecer? Não sei. Essa conta fecha? Também não sei. Mas de uma coisa eu tenho certeza, os perfis das empresas e, principalmente dos seus gestores, precisam mudar radicalmente. Caso contrário, teremos campos sem agricultores. Até o próximo!

por Marcelo Veras
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