Artigo 35 – Interesses

“Pessoas interesseiras se dão bem. Mas depende dos interesses”
por Marcelo Veras | 05 de abr de 2012

Na sequência do artigo anterior, dou início hoje às reflexões sobre a competência Relacionamento interpessoal, lembrando que a sua definição mais moderna , na visão dos líderes empresariais, é a seguinte: Capacidade de interagir e de criar rede de contatos de forma construtiva.

Como primeiro atributo desta competência, temos “o gosto e o interesse em se relacionar com pessoas”. E foi aqui, como membro confesso do grupo de pessoas que não se consideram carismáticas ou que fazem amigo na fila do cinema, que declarei a minha primeira guerra pessoal quando decidi desenvolver esta competência. A palavra interesse, no campo dos relacionamentos, sempre me soou com certo tom pejorativo e desconfio de que para a maioria das pessoas também. Nas próprias definições dos dicionários, termos recheados do mesmo preconceito semântico como “proveito”, “vantagem”, ou até mesmo “egoísmo” também são contemplados e – da mesma forma – exorcizados das suas imagens equivocadamente diabólicas.

Não é à toa que pessoas que adoram circular pelos corredores da empresa, que cumprimentam todos muito bem (principalmente os chefes), que surgem do nada em todos os eventos e que não perdem uma oportunidade de conhecer alguém novo, são chamadas de “interesseiras”. Eu, por exemplo, sempre tive ojeriza a esta palavra e teria pavor de ser apelidado de interesseiro por alguém.

Bom... Mas aqui estamos com um belo dilema: ao mesmo tempo em que a palavra “interesse” pode ser vista sob esta ótica, por outro lado, a sua definição também cita termos como “trazer proveito” ou “agir no interesse de alguém”. Ou seja, se você parar para pensar, este mero vocábulo pode transitar do céu ao inferno, dependendo do seu emprego. E foi aí que, por certo tempo, há alguns anos atrás, parei para pensar sobre o tema. De tão encucado com a questão, até debati com amigos, pares e alunos e colhi centenas de opiniões sobre a pergunta a seguir: Existe relacionamento sem interesse? Fiz esta pergunta a muita gente. Muita mesmo. A resposta inicial, na maioria dos casos, era: - Existe sim. Nem sempre queremos algo em troca de algumas pessoas. Ou seja, a primeira versão, onde a palavra remete ao interesse por vantagem ou proveito, era que primeiro vinha à cabeça. Mas, estas mesmas pessoas, depois de discutirmos o tema mais profundamente, mudavam de opinião e, por fim, concluíam que todos, absolutamente todos os relacionamentos, possuem interesses claros (mas nem sempre conscientes). Mesmo que o interesse fosse ficar feliz pela alegria e desenvolvimento do outro, como nas amizades verdadeiras ou nas relações de pais com filhos.

Ou seja, existem interesses e interesses. E decidi, então, a partir daí, iniciar uma longa relação com o interesse outrora tão discriminado. Concluí que, se a pistola estiver apontada para o lado certo e com intenções legítimas, esta é a arma mais poderosa que uma pessoa pode ter na vida profissional. Hoje tenho muita clareza e convicção de que não se chega sozinho a lugar nenhum e que bons relacionamentos representam um grande atalho para o sucesso profissional.

Não há nada, absolutamente nada de errado, em uma pessoa querer criar e desenvolver uma rede de relacionamentos baseadaem interesses. Assimé a vida e assim é o mundo desde sempre. No passado muito remoto, até a paternidade tinha como interesse principal ter mais pessoas na casa para trabalhar e para cuidar dos pais quando fossem velhos.

O ponto que vou discutir no próximo artigo é: Como montar esta rede, desenvolver e fazê-la dar resultados na sua carreira. Você verá que a parte pejorativa da definição de interesse existe e vai continuar existindo sempre, porque existem pessoas que são, acima de tudo, egoístas e gananciosas. Mas que o outro lado da moeda exibe uma visão moderna, honesta e enriquecedora dos interesses mútuos, quando são usados para o crescimento de ambos.

por Marcelo Veras
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