Artigo 369 – Greve dos caminhoneiros – duas lições para a sua carreira

“Liderança tem que ser legitima e ágil”

 

Há mais de duas décadas ocupo cargos de gestão. O desafio de gerenciar pessoas é enorme. Apanhei muito no começo e até hoje me vejo em situações bastante desafiadoras na função de líder. Se ter um cargo de liderança em uma empresa, onde, em tese, você tem total autonomia e autoridade, é dificílimo, fico imaginando o que não deve ser ocupar um cargo de gestão de uma cidade, de um estado ou de um país.

Essa greve dos caminhoneiros causou um estrago enorme no país. Para mim, ela foi mais do que uma questão de redução de 46 centavos no preço do diesel, assim como os protestos de 2013 não ocorreram por causa de 20 centavos na tarifa de ônibus. Ambas foram resultado de um fenômeno simples de entender o que já está sendo desenhado há anos: quando uma panela de pressão esquenta demais e não é aliviada, explode. O brasileiro, embora pacífico e, na visão de muitos, conformista, está prestes a explodir. Alguns já o fizeram e causaram o que causaram. Ninguém está aguentando mais o péssimo nível de liderança que temos há tempos.

Na minha visão, como sempre de um observador de fenômenos e de relações de causa e efeito, essa greve deixa para nós, profissionais, duas lições:

1 – Uma liderança que não é reconhecida nunca terá o respeito da equipe:o governo atual assumiu o país em uma situação muito difícil e, ao longo de muito pouco tempo, implementou medidas que, se não resolveram, pelo menos encaminharam algumas propostas, principalmente no campo econômico. Mas não adianta. Como, aos olhos de muitos, ele não deveria estar ali, não há o que faça. Nada que este governo fizer será reconhecido ou trará um milímetro de admiração por parte dos seus liderados, assim como o anterior e, dependendo do resultado das eleições, o próximo também.

2 – Em situações de conflito, um líder deve agir rápido:muitos discutem que o governo demorou 4 dias para entender o problema dos caminhoneiros e, pela demora na resposta, deixou a situação se agravar demais. Não concordo. O governo não demorou 4 dias, demorou meses. Isso mesmo. Há meses os caminhoneiros estavam dando sinais claros de que estavam pagando para trabalhar e que o preço do combustível estava insustentável para suas operações. Há meses, eles argumentavam que não fazia sentido pagar pedágio de um eixo que, por estar levantado, nem tocava na pista. Meses, meses e mais meses. Ou seja, a liderança acompanhava, de camarote e sem fazer nada, um problema crescer, crescer e explodir. Como sempre digo aos meus alunos nas minhas aulas sobre liderança, uma das funções de um líder é monitorar possíveis conflitos e matá-los no ninho. Como diz um amigo meu, “no meio de grandes problemas, tem sempre um pequeno querendo crescer”. Já temos problemas demais no país e os líderes atuais ainda permitem o nascimento de outros.

Essas duas são, para mim, as grandes lições que podemos tirar da greve dos caminhoneiros e tentar usar o exemplo para a nossa carreira. O caminho até as eleições ainda será muito duro para esta “empresa” chamada Brasil. Parecemos um barco à deriva, sem rumo, sem liderança e sem decisões de boa qualidade. Os exemplos que vêm de cima são péssimos e só desestimulam. Parecemos uma equipe apática, sem motivação e sem vontade de trabalhar. Os resultados de uma equipe assim não poderiam ser outros além do que são. A esperança que fica é a da renovação. Neste caso, a renovação da liderança. Como de quatro em quatro anos podemos trocar de chefe, que façamos escolhas  melhores da próxima vez. Até o próximo!