Artigo 415 – Demissões catastróficas

“As demissões têm tanto impacto para que vai quanto para quem fica”
por Marcelo Veras | 15 de abr de 2019
Artigo 415 – Demissões catastróficas

- Professor, estou com uma questão séria e gostaria de lhe ouvir. – disse-me um ex-aluno recentemente.

- Conta, Felipe (nome fictício)! O que houve? – respondi com ar de curiosidade.

- Tomei uma decisão. Quero sair da empresa onde trabalho e mudar de ares.– disse ele convicto.

- Ora, meu caro, se você está convicto, vá em frente! Mas aconteceu algo que gerou essa convicção tão forte?

- Sim, professor! O meu chefe foi demitido. Até aí, tudo bem. Eu bem que não gostava muito dele, mas convivíamos profissionalmente até bem.

- Mas, o que a demissão dele tem a ver com a sua saída? – interrompi, curioso.

- Pois é, é aí que está a questão. Ele foi demitido de uma forma terrível, vergonhosa e constrangedora. O Diretor Geral da empresa o chamou, disse que estava demitido e que tinha que sair da empresa imediatamente. Ele não pôde recolher seus pertences, dizer tchau para a equipe e nem anotar seus dados pessoais do computador e celular corporativos. Uma coisa que deixou a todos nós indignados.

- Mas houve algo mais sério? Ele cometeu algum erro grave que justificasse tal postura? – perguntei.

- O “pior” é que não. Tanto é que, minutos depois, o Diretor chamou todos nós e fez o anúncio da demissão e que outra pessoa de fora chegaria em breve para assumir o cargo. Disse que agradecia ao demitido pelos seus 18 anos de empresa e que chegou a hora de mudar. Nós ficamos sabendo de como foi, de fato, a demissão, por ele e por uma pessoa do RH, que acompanhou a demissão e também ficou indignada com a forma como foi feita.

- Entendo. E o que isso causou em você? Perguntei, já sabendo a resposta.

- Bom, nem precisa falar, né? Estou absolutamente abismado com essa postura. Para mim, deu. Estou lá há 9 anos, mas perdi qualquer motivação que tinha para ficar ali. Se fez com ele, pode fazer com qualquer um. Estou fora! Não quero ficar em um lugar onde as pessoas são tratadas assim.

Bom, este caso (real) mostra uma verdade que muitos gestores insistem em ignorar: “Uma demissão tem impactos fortes tanto em quem sai quanto em quem fica”. Será que é tão difícil entender isso? Fico impressionado como um erro tão básico continua sendo cometido por tanta gente em cargos de liderança.

A demissão é um processo natural. Embora difícil, faz parte do jogo e do mundo do trabalho. Trata-se de um momento que deve ser preparado com muita atenção e cuidado, para que os danos (óbvios e certos) sejam minimizados, tanto em quem sai quanto em quem fica. Uma demissão como esta, errada, despreparada e vergonhosa, causa um efeito cascata irreparável. Passa um recado muito claro para o time que as pessoas podem ser tratadas como objetos descartáveis e como lixo. Desculpe-me, mas são esses os termos que me vêm à mente.

Por favor, se você for gestor e algum dia tiver que demitir alguém por desempenho, cumpra sempre duas regras. Primeiro, tenha certeza de que a pessoa recebeu feedback suficiente e que (provavelmente) não verá a demissão com surpresa. Segundo, faça com respeito e dignidade. Caso contrário, em breve os melhores que ficaram vão entrar na sua sala e pedir demissão também. Até o próximo!

Photo by Mantas Hesthaven on Unsplash

por Marcelo Veras
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