Artigo 65 – A essência da Liderança

“servo”
por Marcelo Veras | 02 de jul de 2012

"Um líder tem que ser duro ou servidor? Qual é a essência da liderança?”

Hoje começo uma longa série sobre o tema Liderança. Este assunto é, sem sombra de dúvidas, o que mais desafia estudantes, professores, executivos e empresários. Todos querem saber qual é, de fato, a essência da liderança, o que é um grande líder e como se tonar um. O tema é polêmico, amplo e multidisciplinar. Nas minhas aulas de MBA no módulo de competências empresariais, este é o que mais faz os olhos dos alunos brilharem. Quase todos querem se tornar grandes líderes em suas áreas. Assumir mais responsabilidades, gerenciar equipes e projetos cada vez maiores e, por consequência, ganhar mais dinheiro e ter mais status. Este é o objetivo maior por trás do desejo desenfreado que muitos têm de desenvolverem esta competência. Porém poucos, muito poucos, chegam lá. A maioria não consegue desenvolver plenamente esta competência. As razões são muitas, mas na minha humilde visão, a principal delas é que a maioria das pessoas não consegue entender de fato o que é a essência da liderança. Muitos passam anos investindo em fórmulas e receitas enlatadas, muitas vezes escritas por pessoas que nunca lideraram grandes equipes e projetos.

Para início de conversa, precisamos debater uma questão nevrálgica sobre o tema. Qual é a essência da liderança? Eu iniciei a minha carreira na metade da década de 1990. O Brasil vivia aproximadamente cinco anos de abertura econômica. O clima era tenso. Uma invasão de produtos estrangeiros e centenas (talvez milhares) de empresas brasileiras em pânico porque passaram a concorrer com produtos melhores e mais baratos. Não se falava em outra coisa a não ser em reengenharia, downsizing (enxugamento das estruturas), programas de redução de custos etc. Tudo isso para salvar empresas que viviam há anos acomodadas e se beneficiando de um mercado fechado. Este cenário difícil e transformador exigia que as empresas fossem lideradas por executivos fortes, duros e corajosos, que não tivessem medo de cortar a própria carne, demitir pessoas com quem tinha grande afinidade, cortar custos, eliminar níveis hierárquicos e por aí vai. A sobrevivência da empresa dependia disso. Nesta época, todos os modelos de avaliação e os treinamentos tinham este pano de fundo. Eu mesmo participei de vários treinamentos que tentavam desenvolver competências de liderança que suportassem este cenário. Um dos que participei (uma semana no meio do mato) parecia com o treinamento que aparece no início do filme tropa de elite.

Menos de uma década depois, quando a poeira já tinha baixado um pouco e as empresas brasileiras (as que sobreviveram) já estavam mais preparadas para um mercado aberto, global e competitivo, uma nova onda começou mudar radicalmente a visão do que é ser um grande líder. Inspirados pelo comandante Rolim (presidente da TAM), que mudou algumas práticas que antes não se via na postura de um presidente, muitos passaram a acreditar que o líder ideal era o servidor. O Rolim entregava balinhas junto com os comissários nos voos, estendia o tapete vermelho na porta dos aviões, fazia check in com os atendentes nos aeroportos etc. De lá pra cá, pipocaram livros com uma nova visão de que o líder moderno tem que ser um de seus liderados. Uma piada. E que muitos embarcaram e se deram mal.

Note, caro leitor, que em menos de duas décadas a visão de liderança muda de norte para sul. Estranho, não acha? Será mesmo que a vida é assim? Será mesmo que a essência da liderança é tão volúvel ao ponto de mudar de branco para preto do dia para a noite? A resposta é não. Estavam equivocados que defendiam que um líder de sucesso tinha que ser duro e está equivocado que defende hoje que um líder tem que ser um servidor. A essência da liderança está acima disso tudo. Qual será? Pense nisso até o próximo artigo.

por Marcelo Veras
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